Nas três últimas eleições presidenciais, o mercado de dívida das empresas seguiu caminhos diferentes. De janeiro a setembro, o volume captado em CRI, CRA, debêntures e notas comerciais cresceu 76% em 2018 e 26% em 2022 sobre o mesmo período do ano anterior. Em 2026, caiu 24%.

Os números são do Radar Obligar, levantamento feito com os dados abertos de ofertas públicas da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) até 29 de outubro de 2026. Eles mostram o que aconteceu em cada ano de eleição, mas não dizem por que aconteceu. Apresentamos os dados e não emitimos opinião política nem recomendação.

Como comparamos os anos

Para comparar anos inteiros com o ano em curso, usamos sempre o mesmo período: janeiro a setembro. Somamos quatro tipos de título de dívida:

  • CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários): título lastreado em créditos do setor imobiliário, como as parcelas das unidades vendidas.
  • CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio): o equivalente para o agronegócio.
  • Debêntures: títulos de dívida emitidos diretamente pela empresa.
  • Notas comerciais: títulos de dívida de prazo mais curto, também emitidos pela empresa.

Os valores são nominais, sem correção pela inflação. Há uma ressalva importante: em 2023, a CVM mudou a forma de registrar as ofertas, com a Resolução 160. A mudança afeta mais a contagem de operações do que o volume, por isso comparações de quantidade entre 2022 e 2023 pedem cuidado.

Três eleições, três caminhos

A tabela mostra o volume e o número de emissões de janeiro a setembro em cada ano de eleição, comparados com o mesmo período do ano anterior:

Ano Volume (jan a set) Emissões (jan a set) Variação (volume / emissões)
2018 R$ 154,1 bilhões 432 +76% / +17%
2022 R$ 308,8 bilhões 969 +26% / +24%
2026 R$ 302,0 bilhões 894 −24% / −2%

Em 2018 e 2022, volume e quantidade subiram juntos. Em 2026, o volume caiu bem mais do que o número de emissões, o que indica operações menores em média. Ou seja, ano de eleição não teve uma direção única.

O que acontece no mês da votação?

O primeiro turno das eleições presidenciais acontece em outubro. Comparamos o volume de outubro com a média mensal de janeiro a setembro do mesmo ano:

  • 2018: R$ 8,2 bilhões em outubro, 52% abaixo da média mensal do ano.
  • 2022: R$ 28,9 bilhões, 16% abaixo da média.
  • Anos sem eleição, desde 2019: outubro ficou acima da média em 5 dos 6 anos.

Em número de emissões, a diferença foi menor. Outubro teve 8% mais emissões que a média em 2018 e 4% mais em 2022, os menores aumentos da série; nos anos sem eleição, a alta foi de 9% a 35%. Na nossa leitura, isso indica que, no mês da votação, saíram quase tantas operações quanto no resto do ano, mas de valor menor.

Novembro também ficou abaixo da média em volume nas duas eleições (29% e 27% a menos). Já dezembro ficou acima da média em todos os anos desde 2017, com ou sem eleição.

E no ano seguinte?

Depois das duas últimas eleições, o ano seguinte foi em direções opostas:

  • 2019: o volume do ano inteiro subiu 30% sobre 2018, de R$ 197 bilhões para R$ 255 bilhões. As emissões subiram 23%.
  • 2023: o volume caiu 15% sobre 2022, de R$ 416 bilhões para R$ 354 bilhões. As emissões caíram 26%, número afetado também pela mudança de regra da CVM.

Uma vez subiu, outra caiu. Só o calendário eleitoral não define o ano seguinte.

Em 2026, o CRI andou na contramão

A queda de 2026 não foi igual para todos os tipos. De janeiro a setembro, contra o mesmo período de 2025:

Tipo Volume em 2026 Variação do volume Variação das emissões
CRI R$ 33,4 bilhões +6% +13%
Notas comerciais R$ 37,5 bilhões −3% +36%
Debêntures R$ 220,1 bilhões −27% −19%
CRA R$ 11,0 bilhões −59% −24%

O CRI, principal instrumento das incorporadoras e loteadoras, cresceu em volume e em número de operações enquanto o total caiu. Para o setor imobiliário, isso significa mais contratos novos em andamento, como mostramos em emissões de CRI crescem.

Como ler esses números

Os dados mostram coincidências no tempo, não causas. Juros, inflação, mudanças de regra e a demanda dos investidores também pesam no volume de cada ano, e este levantamento não separa o efeito de cada fator.

O que os números permitem dizer é mais simples: anos de eleição tiveram comportamentos diferentes entre si, e o mês da votação concentrou operações menores nas duas últimas eleições.

Um exemplo para visualizar

O caso a seguir é hipotético e serve só para ilustrar.

Imagine uma incorporadora que emitiu um CRI em 2022, ano de eleição, e outro em 2026. Em outubro de 2026, enquanto o mercado acompanha a votação, os dois contratos seguem com as próprias datas: um pede o relatório trimestral da carteira em outubro, o outro mede a razão de garantia no fechamento do ano.

Se o relatório atrasar porque a equipe está focada na nova captação, o descumprimento pode virar pauta de assembleia com os investidores, com custos de convocação. O calendário eleitoral muda o humor do mercado, mas não muda o prazo do contrato.

O que isso muda para você

  • As obrigações não param: operações emitidas em qualquer ano seguem com relatórios, garantias e indicadores até o último pagamento, em ano de eleição ou não.
  • O fim do ano concentra datas: balanços de dezembro e indicadores medidos no fechamento do ano costumam pesar no primeiro trimestre seguinte.
  • Mais operações, mais calendários: com o CRI crescendo em número de emissões, quem capta com frequência acumula contratos com regras diferentes. Se precisar relembrar o que está em jogo, veja o que são covenants.

O que fazer a partir de agora

  1. Liste todas as operações abertas e as obrigações que vencem até o fim do ano.
  2. Identifique os indicadores medidos no fechamento de dezembro e acompanhe o valor deles antes da data.
  3. Defina um responsável e um aviso com antecedência para cada obrigação.
  4. Antes de uma nova emissão, compare as obrigações do novo contrato com as que você já cumpre.

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Fonte: CVM, dados abertos de ofertas públicas de distribuição, 29/10/2026. Levantamento: Radar Obligar. dados.cvm.gov.br