Uma empresa consegue captar bilhões no mercado de capitais sem entregar nenhum bem em garantia? No setor de locação e gestão de frotas, consegue. Mas não são todas.
Segundo estudo da Vitrify com dados de 2 de outubro de 2026, o setor tem 120 operações de dívida em circulação, com R$ 86,6 bilhões de saldo devedor. 28% dos papéis não têm nenhuma garantia cadastrada, enquanto as empresas menores do setor oferecem veículos e recebíveis e pagam taxas mais altas.
A lógica vale para qualquer emissor, inclusive incorporadoras e loteadoras. Quem tem escala e histórico negocia em outras condições.
Como as locadoras captam no mercado de capitais
O setor capta quase só por debêntures, títulos de dívida emitidos diretamente pela empresa. De acordo com a Vitrify, elas respondem por 92% do saldo. CRA e CRI somam R$ 6,5 bilhões.
O CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e o CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) são títulos lastreados em créditos do agronegócio e do setor imobiliário. No setor de frotas, a maior parte deles é de Vamos, Movida, Localiza e Unidas, segundo o estudo.
A concentração é alta. Cinco grupos respondem por quase todo o saldo, segundo o estudo:
- Localiza: R$ 37,4 bilhões, 43,2% do saldo.
- Movida: R$ 19,2 bilhões, 22,2%.
- Vamos: R$ 13,0 bilhões, 15,0%.
- Unidas: R$ 7,7 bilhões, 8,9%.
- LM Transportes: R$ 6,6 bilhões, 7,6%.
Os outros 16 grupos devedores somam R$ 2,6 bilhões, ou 3% do total.
A Vitrify faz duas ressalvas sobre esses dados: o material apresenta números e não emite opinião, e foi gerado por inteligência artificial a partir da sua base, podendo conter erros ou omissões.
Quem capta sem garantia e quem paga mais
Garantia é o que o investidor pode executar se a dívida não for paga. No setor de frotas, a mais comum é o aval ou fiança de pessoa jurídica, quando outra empresa do grupo se compromete a pagar se a devedora não pagar. Ela aparece em 56% dos papéis.
A tabela abaixo mostra, para cada grupo, a parcela de papéis sem garantia e a taxa média de emissão nas debêntures sem isenção de imposto indexadas ao CDI:
| Grupo | Papéis sem garantia | Garantia mais comum | Taxa média |
|---|---|---|---|
| Localiza | 5% | Aval de empresa (95%) | CDI + 1,43% |
| LM Transportes | 100% | Nenhuma | CDI + 1,66% |
| Unidas | 29% | Aval de empresa (71%) | CDI + 2,27% |
| Vamos | 67% | Fundo de despesas (33%) | CDI + 2,38% |
| Movida | 26% | Aval de empresa (66%) | CDI + 2,48% |
| Demais empresas | 0% | Alienação de veículos (67%) | CDI + 2,53% |
"CDI + 1,43%" significa pagar o CDI, a taxa de referência do mercado, mais 1,43% ao ano.
O contraste está na última linha. Entre as empresas menores, nenhum papel ficou sem garantia. Segundo a Vitrify, 67% têm alienação fiduciária de veículos, em que os carros ficam em nome do credor até a quitação. Além disso, 62% têm cessão fiduciária de recebíveis, com as receitas de locação vinculadas ao pagamento, e 33% têm aval de pessoa física, normalmente dos sócios.
A própria Vitrify alerta que comparações entre grupos embutem diferenças de prazo, garantia e tributação, e que a taxa acompanha o nível de juros de cada período. Na nossa leitura, mesmo com essas ressalvas, o padrão é claro: quem é menor entrega mais garantias e ainda paga mais caro.
Prazos curtos e dívida que precisa ser rolada
O prazo médio até o vencimento no setor é de 4,1 anos, segundo o estudo. É um prazo curto. Na nossa leitura, ele acompanha o ciclo de renovação das frotas.
A finalidade declarada dos papéis também chama atenção. De acordo com a Vitrify, 53,4% do saldo foi captado para capital de giro e 27,3% para reperfilamento de dívidas, ou seja, para trocar dívidas antigas por novas, com outros prazos e condições.
Na prática, isso significa voltar ao mercado com frequência. E, a cada nova emissão, o investidor olha de novo para o histórico do emissor.
Outro dado do estudo ajuda a entender o momento. Os coordenadores, os bancos que organizam a oferta, ficaram com 63% do volume colocado nas ofertas analisadas. Os fundos ficaram com 28% e as pessoas físicas, com 3%. A própria Vitrify define essa parcela como a subscrita pelas instituições intermediárias.
Um exemplo para visualizar
Imagine uma locadora regional que emitiu uma debênture de quatro anos, com alienação fiduciária de parte da frota e cessão dos contratos de locação. O caso é hipotético e serve só para ilustrar.
Frota não fica parada. Ao longo da operação, a empresa vende carros usados e compra novos. Cada carro vendido que estava em garantia precisa ser substituído, no prazo e na forma que o contrato define, para manter o volume de garantia exigido.
No segundo ano, a empresa acelera a renovação da frota e a área comercial vende veículos alienados sem avisar o financeiro. A garantia fica abaixo do mínimo contratado.
O resultado pode ser um pedido de perdão aos investidores, votado em assembleia, com custos. Ou, no limite, a cobrança antecipada da dívida. Uma loteadora vive a mesma situação quando vende lotes cujos recebíveis estão cedidos na operação.
O que isso muda para você
Os dados da Vitrify são do setor de frotas, mas a lição vale para incorporadoras, loteadoras e construtoras:
- Garantia é preço: quem não tem escala nem histórico compensa entregando bens e recebíveis, e ainda assim paga mais.
- Garantia viva exige acompanhamento: quando o bem em garantia gira, como carros ou lotes, a obrigação de repor ou comprovar a garantia acompanha cada venda.
- Prazo curto é teste frequente: quem precisa rolar dívida a cada poucos anos é avaliado de novo a cada emissão, e os covenants cumpridos no caminho contam a favor.
Para comparar com outro setor, veja também como funcionam as garantias no CRI de shopping.
O que fazer a partir de agora
- Liste os bens e recebíveis dados em garantia em cada operação.
- Identifique quais garantias mudam com a operação do dia a dia, como vendas de lotes, unidades ou veículos.
- Defina um fluxo para que o financeiro seja avisado antes de cada venda de um bem em garantia.
- Acompanhe os vencimentos com antecedência para chegar à rolagem com o histórico em ordem.
Entenda como a Obligar já evitou R$ 324 mil em prejuízo e mais de R$ 2 milhões em custos de assembleia. Agende uma demonstração!
Fonte: Vitrify, "Gestão de frotas no crédito privado", estudo setorial do subsetor gestão de frotas, 02/10/2026.



